Tinham combinado ir juntos à aula de inglês. Ele chegou mais cedo do que o combinado e foi entre abraços e beijinhos que foram andando para a Academia de Línguas.
Sentaram-se na biblioteca, ainda era cedo. Ele falou dos planos para o dia seguinte e quis saber se já estava tudo tratado, ou se havia, ainda, alguma coisa para fazer. Ela olhou para ele, tentou falar e nada, nem a boca conseguia abrir. Ele zangou-se, pensou que ela não queria responder-lhe. Quanto mais ele gritava mais ela muda ficava e aflita...muito aflita. Acontecia-lhe muitas vezes isto, e sempre com as pessoas que mais gostava.
Ele, vendo que nada do que dissesse a faria falar, pegou num lápis e numa folha e deu-lhos. Ela escreveu, escreveu...todas as repostas às suas perguntas e quando acabou desenhou um coração onde escreveu desculpa, amo-te. Ele leu sorriu e deu-lhe um beijo.
Escrever, para ela, sempre fora um bálsamo, uma terapia, uma maneira de se expressar pois falar era muitas vezes doloroso. Lembrava-se das redações que fazia na primária, onde tinha sempre Muito Bom, e mais tarde, no liceu, das composições e dos resumos dos livros que lia. Mostrava-os sempre ao pai que lhe dava a sua opinião e corrigia frases mal construídas.
Tirou um curso, na área de ciências, mas nunca deixou de escrever. Pequenos contos, reflexões, diários de viagens...e o pai lia-os e incentivava-a a escrever mais. Só ele sabia da sua incursão pela escrita...era um segredo dos dois.
Estava triste, muito triste o pai tinha falecido... Pegou nos cadernos onde tinha o que escrevera e começou a ler. Nalguns ainda estava a letra do pai, palavras de correção, de apoio... A tristeza transformou-se em raiva...e foi com os olhos marejados de lágrimas que rasgou todos os cadernos...

