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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ela preferia escrever...

    Tinham combinado ir juntos à aula de inglês. Ele chegou mais cedo do que o combinado e foi entre abraços e beijinhos que foram andando para a Academia de Línguas
    Sentaram-se na biblioteca, ainda era cedo. Ele falou dos planos para o dia seguinte e quis saber se já estava tudo tratado, ou se havia, ainda, alguma coisa para fazer. Ela olhou para ele, tentou falar e nada, nem a boca conseguia abrir. Ele zangou-se, pensou que ela não queria responder-lhe. Quanto mais ele gritava mais ela muda ficava e aflita...muito aflita. Acontecia-lhe muitas vezes isto, e sempre com as pessoas que mais gostava.
    Ele, vendo que nada do que dissesse a faria falar, pegou num lápis e numa folha e deu-lhos. Ela escreveu, escreveu...todas as repostas às suas perguntas e quando acabou desenhou um coração onde escreveu desculpa, amo-te. Ele leu sorriu e deu-lhe um beijo.
          
    Escrever, para ela, sempre fora um bálsamo, uma terapia, uma maneira de se expressar pois falar era muitas vezes doloroso. Lembrava-se das redações que fazia na primária, onde tinha sempre Muito Bom, e mais tarde, no liceu, das composições e dos resumos dos livros que lia. Mostrava-os sempre ao pai que lhe dava a sua opinião e corrigia frases mal construídas.
   Tirou um curso, na área de ciências, mas nunca deixou de escrever. Pequenos contos, reflexões, diários de viagens...e o pai lia-os e incentivava-a a escrever mais. Só ele sabia da sua incursão pela escrita...era um segredo dos dois.

    Estava triste, muito triste o pai tinha falecido... Pegou nos cadernos onde tinha o que escrevera e começou a ler. Nalguns ainda estava a letra do pai, palavras de correção, de apoio... A tristeza transformou-se em raiva...e foi com os olhos marejados de lágrimas que rasgou todos os cadernos...



domingo, 14 de outubro de 2012

A amizade é um amor sem asas


Rosa olhava o mar. As férias estavam a acabar e ela queria levar na memória aquele mar... calmo, às vezes, um gigantesco turbilhão, quase sempre, mas mágico... muito mágico.

Fechou os olhos para conter uma lágrima que sentia querer sair. Estes momentos de tristeza surgiam quando menos esperava, vindos do nada... ou talvez, do momento em que deixara Raul sozinho, sem uma palavra, sem um último beijo...
"Que bom este cheiro a mar", pensou, e ali ficou... Aos poucos foi deixando de ouvir os gritos das crianças a brincar, as conversas dos veraneantes e o som do bater dos calhaus enrolados nas ondas.

Raul sentou-se na areia junto dela, passou as mãos pelos caracóis do seu cabelo e disse-lhe "está tão comprido... estás linda Rosa... sabes, a amizade é um amor sem asas".

A água do mar gelada a tocar-lhe os pés fez com que abrisse os olhos. Olhou para o lado... estava sozinha. Levantou-se. Precisava de telefonar ao Raul!

Afinal não iria deixar que o amor a fizesse desistir de uma bela amizade.




segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ele não gostava de despedidas




Rosa desceu as escadas a correr, já estava atrasada. Raul já devia  estar à sua espera na esplanada do jardim e ele não gostava de atrasos. Enquanto percorria rapidamente a avenida aconchegou o casaco, um vento frio gelava-lhe o corpo. Não percebia, embora intuísse, a razão do encontro.  Raul ligara-lhe apenas duas horas antes "vai ter comigo à esplanada, preciso de falar contigo".

Lá estava ele, numa mesa, num canto, abrigada do vento. Era lindo e, embora gostasse mais de o ver com roupa casual, o fato que trazia vestido ficava-lhe muito bem. Levantou-se quando ela chegou e deu-lhe um beijo em cada uma das faces. Rosa sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo...

Sentaram-se, ele perguntou-lhe como estava, falou dos filhos, dos netos... Rosa olhava-o, os seus lábios finos, os olhos castanhos e o seu sorriso fascinavam-na. Deixou de o ouvir, recordava os momentos que tinham passado juntos, momentos de descoberta mútua e em que ela descobrira o quanto gostava dele e como ele era importante para ela. Sentiu a mão dele na dela, "Rosa, como te disse preciso de falar contigo, não te zangues nem fiques triste, as coisas mudam como tu sabes". Ela sorriu. "Vou à casa de banho, volto já Raul".

Rosa entrou no café pela porta que ficava junto à mesa onde estavam. Pela janela olhou-o... um último olhar. Limpando uma lágrima que teimava em cair saiu pela outra porta. 

Afinal ele não gostava de despedidas.