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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Falando de homens

   Claro que falamos de homens. Quando as mulheres se reúnem, falam de homens. Dos próprios e dos alheios: das manias, das mudanças de humor, do que lêem, das manias, das suas preocupações, do tamanho disto, da grossura daquilo, das manias.
    - Achas que com os anos o sexo masculino diminui?
    - Sem dúvida, está mais do que provado.
    - Tranquilizas-me, pois acho que o João está a perder faculdades...
    - Que tipo de faculdades?
   - Um pouco de todas. Adormece no cinema, cai-lhe mal o borrego, já não sabe dançar e acho que ultimamente perdeu um pouco de tamanho...sabes o que quero dizer...
    - A sério? E o João que estava tão bem.
   - Pois, já não é o mesmo. Ao princípio pensei que era eu, mas não. Perguntei à secretária e ela pensa o mesmo.
    A diferença em relação aos homens, é que nós mulheres, não gabamos as nossas proezas sexuais (dez orgasmos em quarenta e sete minutos, seios de aço...), nem exageramos os atributos dos nossos amantes. Pelo contrário. Vá-se lá saber por que ancestral e contagioso ataque de humildade, as mulheres falam pormenorizadamente das suas carências, defeitos e taras. A história da Clara é um bom exemplo. Faz agora um ano que se apaixonou pela pessoa mais inconveniente do mundo ocidental e não nos escondeu pitada. Contou como o conheceu, o que fizeram e finalmente levou-nos a conhecê-lo:
    - É aquele. O alto e giro, com blusão de cabedal.
    - Queres dizer, aquele alto de patilhas, com o blusão de cabedal com picos, três brincos na orelha, tatuagem no braço e que aparenta vinte e cinco anos...
    - Sim, esse.
    - E, de certeza, estás louca por ele e se ninguém te impedir montas-te na mota dele e vais à procura de melhores dias e grandes espaços. De certeza, vais desaparecer. Já...
    Naquela altura quase comemos a Clara viva, mas percebê-mo-la. Acabava de deixar o Afonso (excelente cozinheiro e fiel companheiro com emprego fixo) e agarrou-se, sem mais nem menos, ao da tatuagem.
    O problema era, sabíamos todas, o Afonso gostar demasiado dela.
    Pronto, já sei, já ouço centenas de grunhidos e maldições masculinas (mulheres, é sempre a mesma coisa, não sabem o que querem e pior, exigem-nos sensibilidade e compreensão quando o que querem é um homem com pelos no peito!). Só que não é bem assim rapazes. Há diferenças. Há determinados homens que amam demasiado e acabam por abafar a identidade. Dão os parabéns à tua mãe (mas esquecem-se dos teus anos), sabem fazer arroz xau-xau (a receita é tua, mas melhoraram-na) e quase te roubam as amigas. Quando quiseres acabar com eles, ficarão despedaçados, precisarão de auxílio psicológico e perseguir-te-ão até ao fim dos teus dias. Muito perigosos.
    Por isso, mais vale um tipo com bigode, que nunca te dá nada, que te telefona quando se lembra e resiste aos convites. Esta era a vergonhosa situação da Clara. E todas nós a percebíamos.



    

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