Ainda ao colo as meninas sabiam que existiam dois tipos de mulheres. Um era Maria e o outro Eva. Maria inventou o tempo com o nascimento do seu filho e, depois, a eternidade com a sua morte. Eva, a não imaculada, a pecadora, foi capaz de mostrar com uma humildade de macieira a sexualidade: ou seja, a morte.
Bem, na altura não entendíamos, os pormenores simbólicos, mas a ideia geral era já bem clara e todas nós distinguíamos, sem qualquer possibilidade de confusão, a Maria da Eva...Sacodes o cabelo quando os rapazes estão a olhar: Eva. Tapas os joelhos com a saia, modesta, quando alguém se aproxima: Maria. Empurras sem querer um rapaz que te agrada: Eva. Negas-te redondamente a dançar apertadinha, embora morras de vontade de o fazer: Maria. Tocas no teu corpo e sentes um prazer indescritível: Eva. Tocas no teu corpo e sonhas que quem te toca é o professor de música: Eva. Que o professor de música é um padre: Eva! Eva! Eva!
Na adolescência devíamos tomar a grande decisão: Eva ou Maria? Na verdade preferíamos ser Maria - porque, honestamente era o mais conveniente - mas, apesar das freiras, das professoras e das nossas mães, o corpo traía-nos e a natureza encarregava-se de equilibrar a balança.
Todas nós somos Maria Eva ou Eva Maria, uma pitada de cada, envolto em doses de carinho, humor, raiva, paciência, dedicação...e servido com muita doçura.
Todas nós somos Maria Eva ou Eva Maria, uma pitada de cada, envolto em doses de carinho, humor, raiva, paciência, dedicação...e servido com muita doçura.

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