Páginas

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Maria ou Eva?

    Ainda ao colo as meninas sabiam que existiam dois tipos de mulheres. Um era Maria e o outro Eva. Maria inventou o tempo com o nascimento do seu filho e, depois, a eternidade com a sua morte. Eva, a não imaculada, a pecadora, foi capaz de mostrar com uma humildade de macieira a sexualidade: ou seja, a morte.
    Bem, na altura não entendíamos,  os pormenores simbólicos, mas a ideia geral era já bem clara e todas nós distinguíamos, sem qualquer possibilidade de confusão, a Maria da Eva...Sacodes o cabelo quando os rapazes estão a olhar: Eva. Tapas os joelhos com a saia, modesta, quando alguém se aproxima: Maria. Empurras sem querer um rapaz que te agrada: Eva. Negas-te redondamente a dançar apertadinha, embora morras de vontade de o fazer: Maria. Tocas no teu corpo e sentes um prazer indescritível: Eva. Tocas no teu corpo e sonhas que quem te toca é o professor de música: Eva. Que o professor de música é um padre: Eva! Eva! Eva!
    Na adolescência devíamos tomar a grande decisão: Eva ou Maria? Na verdade preferíamos ser Maria - porque, honestamente era o mais conveniente - mas, apesar das freiras, das professoras e das nossas mães, o corpo traía-nos e a natureza encarregava-se de equilibrar a balança. 
    Todas nós somos Maria Eva ou Eva Maria, uma pitada de cada, envolto em doses de carinho, humor, raiva, paciência, dedicação...e servido com muita doçura.





Sem comentários: