Os homens casados são bestiais.
Aos cinquenta, já os podemos, finalmente, apreciar. Falo, é claro, dos casados com outras: amigas, colegas, rivais ou desconhecidas. O Jean Pierre é o melhor exemplo.
Vê-se perfeitamente que é felicíssimo com a mulher e por isso é tão atraente. Alto, olhos castanhos, ar tranquilo e um apurado sentido de humor, conhece bem os seus defeitos e apresenta-os, sempre que pode, como prova de autenticidade, como um verdadeiro certificado de garantia (sou brincalhão e desajeitado, um pouco infantil mas muito querido...). O que realmente acontece é que Jean Pierre faz seu o olhar da mulher, devolvendo-o como seu: és um desastre Jean Pierre, repreende-o ela meigamente enquanto lhe faz a mala para mais um congresso de médicos. Esqueces-te de tudo e amarrotas irremediavelmente as camisas.
Jean, encostado à ombreia da porta, sorri-lhe com o mesmo sorriso doce com que olha agora para mim e com que há de olhar, por entre lençóis, para Aurora, a sua amante do Porto, que ama livremente, como ele próprio diz. É verdade, Jean Pierre é um amante fogoso e destemido, um verdadeiro artista da libido que expressa dentro e fora da sua estável e elegante vida matrimonial.
Meu querido Jean Pierre! Tão casado. Tão terrivelmente satisfeito consigo mesmo.
Aqui sentada à sua frente num bar, enquanto me acaricia a mão, pergunto-me com irá reagir ao saber que a mulher está prestes a envolver-se com um muito jovem fotógrafo de moda e que a Aurora tenciona ficar grávida o mais depressa possível.
Dele.

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