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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Casais

    Quando saí, para ir à farmácia, tropecei num casal de namorados que se beijava desenfreadamente junto ao elevador. A posição à qual ele a obriga é improvável e inverosímil; espetacular. Além disso, ela só deve ter treze anos!, penso, enquanto saio pela porta olhando para trás.
    Encostado a um dos carros estacionados em frente da casa vejo outro par: ela está entre as pernas abertas (as dele) e ele tem as mãos metidas nos bolsos de trás das calças de ganga (as dele nas dela) ... Por acaso, ao lado, estão outros dois, abraçados, intrinsecamente abraçados: ela dá-lhe beijinhos nas orelhas, no pescoço, no queixo, no peito, nos ombros e volta ao princípio. Ele tem a camisa aberta até ao umbigo.
    Os casais enchem as ruas da cidade e todos (quase) vão de mão dada, com o braço na cintura, enroscados, com as línguas emaranhadas, com as pernas trocadas ou transformadas num monstro de quatro patas e duas costas, como descrevia Shakespeare.
    Sinto-me invisível. Por muito que olhe, ninguém se apercebe. Na realidade eles nem fazem ideia que existe mais alguém no mundo. O seu universo acaba nos bolsos de trás das calças de ganga do outro.
    Evidentemente, nenhum deles é casado.
    Nem tão pouco o casal que está a comer crepes na esplanada de um dos cafés da avenida: olham-se profundamente nos olhos; ela acaricia-lhe, com movimentos sugestivos e ritmados, o polegar; segredam um ao outro obscenidades (que mais pode ser se a esta distância lhes vejo a língua?) entre uma garfada de vaca com molho de ostra e outra de porco doce.
    O casal em frente, em compensação, é casado.
    Muito casado.
    Para começar não se falam nem se tocam. Bem, ele toca-lhe de vez em quando no ombro para que ela lhe encha o copo de vinho. Salvo este gesto e algum grunhido abafado pela salada de rebentos de soja que lhe enche a boca, nada.
    É normal, dizem todos os casados. Ambos já passaram da paixão à compreensão, à tolerância e depois (se não se divorciaram) a uma hostilidade muda. O marido da salada de rebentos de soja, por exemplo, nunca saberá que tem um (repugnante) pingo de azeite a escorrer pela barba porque a mulher lhe vai servir o vinho, olhando com curiosidade científica para o percurso que vai desde o canto da boca até determinado lugar do colarinho da camisa, e vai ficar silenciosa como um túmulo. Quer dizer uma casada profissional.
    Os meus amigos Ana e João, casados, exercitam maravilhosa e constantemente essa utilidade muda (a Ana chama-lhe vingança diária): o João esquece-se sempre das chaves do carro no móvel de entrada e ela só se lembra na garagem; a Ana pinta - não se sabe porque feminina razão - os dentes em vez dos lábios e o João deixa-a exibir uma dentadura encarnada a noite toda. O João conta uma anedota ótima e a Ana diz, mentindo, «é incrível como te repetes».
   É perfeitamente normal. Faz parte da natureza do casamento. Só que os casais que se abraçam na rua não o sabem.
    Ainda.





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