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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Parti a cabeça...

    Teria, na altura, oito anos e vivia em S. Vicente, uma bonita vila situada na costa norte da ilha da Madeira. Havia um muro, nas traseiras da casa, onde eu e os meus irmãos adorávamos andar. A minha mãe ralhava e proibia-nos de para lá subir mas nós não ligávamos, até que...
    Naquele dia sentia-me um bailarina ou uma artista de circo a andar no arame; percorri o muro saltando, rodopiando...para cá, para lá...que bom! Se desse um salto mais alto voaria. E voei mesmo quando, ao sair do muro, o meu pé falhou a botija de gás que nos servia para subir e descer. Caí de costas e bati com a cabeça no chão... Levantei-me, meia atordoada e fui ter com os meus irmãos que estavam a brincar debaixo de um telheiro próximo. Deitei-me na manta que estava estendida no chão.
    "Tanto sangue!" - diz o meu irmão de seis anos.
    "Mila, Mila, a Cristina partiu a cabeça." - gritou a minha irmã, de sete anos, exagerada como sempre e chamando a empregada.
    Deixei-me estar deitada a olhar para a mão, cheia de sangue, com que tinha tocado na cabeça...
    S. Vicente não tinha hospital nem centro de saúde, foi, pois, para a farmácia que a Mila me levou. Os meus irmãos também foram, tentando, entre discussões e pontapés, segurar a toalha que servia para estancar o sangue que escorria da minha cabeça. 
    Quando os meus pais chegaram do Funchal, onde tinham ido fazer compras, eu estava cheia de medo do ralhete. Andava às "arrecuas" para eles não verem a ferida...
    O meu irmão, que já na altura gostava de tudo muito bem esclarecido, contou-lhes da queda com todos os pormenores. 
    "Lá vem palmada" - pensei.
    Mas não, nenhum deles ralhou ou bateu. O meu pai quis ver a ferida e perguntou se doía muito, a minha mãe apenas disse "espero que te tenha servido de lição". 


    Afinal não parti a cabeça, foi apenas uma ferida muito pródiga em sangue, e também não deixei de andar em cima do muro.


Foto antiga da capelinha de S. Vicente





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