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quinta-feira, 7 de março de 2013

Balada de Outono para Zeca Afonso*

Uma noite um adeus sono vazio
águas das fontes choupos laranjais
as palavras levadas pelo rio
ó chorais não mais não mais.

Ó ribeiras calai-vos anjo negro
cavaleiros vampiros rosa fria.
As palavras caíam no Mondego
era Outono e só ele se despedia.

Partir para Marrocos ou Turquia
embarcar na falua de Istambul
dobrar o cabo da melancolia
partir partir partir mais para sul.

Ouve lá Zeca Afonso: e a cantoria?
- Preciso de partir para outro fado.
E havia em sua voz o que só havia
do outro lado.

Havia Bensafrim e a hospedaria
um redondo vocábulo e um sino.
As bruxas. Mafarricas. Alquimia
para mudar o canto e o destino.

Por isso aquela noite sem saber
era outra a canção que lhe nascia.
Havia em sua voz uma estátua a arder
e Grândola era o país que não havia.

O calor de mais cinco e da amizade.
S. Francisco de Assis: voz companheira
para levar aos pobres da cidade
uma canção à sombra da azinheira.

Manuel Alegre in "Coimbra nunca vista"


*na composição deste poema entram palavras e imagens de Zeca Afonso





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