Um amigo, por
definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de
quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente
relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a
palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo
tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos
estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. A
amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha
das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A
amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se
aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo
interior e escondido, que não serão as palavras a expressar.
O modo como uma grande amizade começa é
misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um
laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é
que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade. Na maior parte das
vezes, quando reconhecemos alguém como amigo, isso quer dizer que já nos ligava
um património de amizade, que nos dias anteriores, nos meses anteriores, como
escreveu Maurice Blanchot, «éramos amigos e não sabíamos.»
Aquilo de que uma amizade vive também dá que
pensar. É impressionante constatar como ela acende em nós gratas marcas tão
profundas com uma desconcertante simplicidade de meios: um encontro dos olhares
(mas que sentimos como uma saudação trocada entre as nossas almas), uma
qualidade de escuta, o compartilhar mais breve ou demorado de uma mesa ou de
uma conversa, um compromisso comum num projeto, uma qualquer ingénua alegria...
A linguagem da amizade é discreta e ténue. E, ao mesmo tempo, é inesquecível e
impressiva.
Há aquele ditado que diz: «viver sem amigos é
morrer sem testemunhas.» A diferença entre os conhecidos e os amigos é a mesma
que distingue um ocasional espectador daquele que está habilitado a
testemunhar. Este último disponibiliza-se realmente a ser presença. Se
tivéssemos de resumir a sua natureza, podíamos dizer: um amigo é alguém que foi
capaz de olhar, mesmo que por um segundo apenas, o fundo da nossa alma e
transportar depois consigo esse segredo, da forma mais gratuita e construtiva.
Tenhamos por uma grande verdade aquilo que
escreveu o filósofo Paul Ricoeur: «para ser amigo de si próprio é necessário
ter já vivido uma relação de amizade com alguém.» Mas também aquilo que Séneca
antes havia gravado: «Ter um amigo é ter alguém por quem morrer.»

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